Vera
Ele se lembra de Vera. Se lembra dela todos os dias. Quando disse que se veriam de novo, ele acreditou.
Ele se lembra de Vera. Se lembra dela todos os dias desde a juventude, quando a conheceu pela primeira vez. Desde que ela o convenceu de que ficaria tudo bem. Ela falava com confiança, mas com ternura. Naquela época, Vera era tudo o que ele procurava e tudo o que ele nem sabia que procurava. Ela estava lá quando ninguém mais parecia estar e prometeu nunca abandoná-lo. Mesmo quando ele se afastou, ela disse que se encontrariam de novo.
E ele acreditou. Acreditou que um dia veria Vera novamente e tudo voltaria a ficar bem de novo.
Um dia, ele perdeu os amigos que tinha. Ainda tinha contato com um ou outro, mas não era mais a mesma coisa. A maioria se afastou depois do que ele fez. Ele não os culpa, pois provavelmente teria feito o mesmo. As reuniões entre eles não eram mais tão agradáveis, pois a presença dele sempre deixava um clima estranho no ar. As conversas que pareciam interessantes aos poucos foram perdendo o brilho. Quando ele se propunha a falar algo, era ignorado. Eventualmente, ele parou de falar com eles. Até mesmo aqueles poucos com quem ele mantinha contato sumiram com o tempo. Diziam que ainda eram amigos, mas ele sabia que era mentira; só algo que se diz por educação quando não se quer magoar os sentimentos do outro. Boa tentativa, ele pensou, mas não vai funcionar, porque ele sabia o que queriam dizer de verdade. No final daquele dia, todos os seus amigos não passavam de memórias distantes. Mas tudo bem, porque ainda havia Vera.
Ele ainda se lembrava do último amigo que perdeu. Ele mesmo decidiu se afastar. Seu amigo se preocupava, porque ele vivia em crise. Seu amigo se preocupava, porque ele vivia pedindo ajuda. Seu amigo se preocupava, porque ele parecia fingir estar bem. Seu amigo se preocupava, porque sabia que ele não tinha a quem recorrer. Ele, então, se afastou, porque percebeu que não era mais do que um fardo para seu amigo. Ele se importava com ele, e de modo algum queria se tornar um fardo. No final daquela conversa, seu último amigo virou uma memória distante. Mas tudo bem, porque ainda havia Vera.
Um dia, ele conheceu uma pessoa especial. Uma pessoa que o lembrava Vera. Uma pessoa com quem ele passou algum tempo. Uma pessoa que mostrou a ele belos lugares, belas experiências e harmonizava o todo da vida. Uma pessoa que o permitiu, por um breve momento, ser vulnerável. Mas do mesmo modo que essa pessoa apareceu, ela sumiu. Tão simples quanto um truque de mágica, mas truques de mágica não são simples. Do calor de andar de mãos dadas ao caminhar sozinho no frio. Ele fez algo de errado, com certeza. Não sabia apontar exatamente o quê, mas sabia que tinha feito. Uma pessoa que some assim não faria isso sem motivo. O que faltou? Ele nunca descobriu a resposta, mas no final daquele mês ela era apenas uma memória distante. Mas tudo bem, porque ainda havia Vera.
Um dia, as coisas que ele fazia deixaram de ser importantes. A alegria de dedilhar as cordas de um violão se transformou em sons sem muito significado. Uma tarde para contar histórias fantásticas ao redor de amigos se tornou um mero compromisso que seria adiado. Faz sentido, já que ele não tinha mais amigos. Pensar sobre as diferentes facetas da vida, da organização social e política, do verdadeiro significado de felicidade e da origem da própria existência já não passava de um denso discurso sem vida ou propósito real. Algo nele transformava todos os prazeres em angústia. No final daquele semestre, seus prazeres eram apenas uma memória distante. Mas tudo bem porque ainda havia Vera.
Um dia, ele conheceu mais uma pessoa especial. Dessa vez, ele disse, seria diferente. As circunstâncias eram diferentes. Essa pessoa era diferente. Ele era diferente. O diferente o lembrava de Vera. Parecia bom, e de fato foi. Até que ele cometeu um erro. Um erro grave. Qual erro? Ele nunca descobriu, mas sabia que havia cometido. Talvez nem tenha sido um único erro, mas uma série de pequenos erros. Os sinais estavam todos lá, e dessa vez ele percebeu antes. O que era afeto se transformou em indiferença e o que era promessa se transformou em discurso vazio. Percebeu que havia errado e percebeu o que viria a seguir. Na mosca. Tal como essa pessoa veio, ela foi. A diferença é que dessa vez era esperado, então não houve tristeza. Houve, no entanto, angústia. Faz todo o sentido, pois quem não ficaria angustiado vendo o inevitável se aproximar sem nada poder fazer para mudar? Certamente não ele. No final do ano, tudo isso era apenas uma memória distante. Mas tudo bem, porque ainda havia Vera.
Um dia, ele decidiu ir embora, pois entendeu que nunca mais veria Vera.