Na fila
“Não esperava te encontrar aqui.”
“Sério? É coincidência a gente se trombar, mas não deveria ser incomum. Nós dois moramos aqui perto”
“É verdade. Como você está?”
“Bem. Você?”
“Também.”
“Que bom.”
Estavam ambos desacompanhados, enfrentando a fila num sol moderado. O céu estava claro e as folhas verdes das árvores balançavam com o vento forte. O som de dezenas de pessoas conversando, caminhando e rindo ao redor era predominante, com uma música irreconhecível servindo como ruído branco no fundo.
“Então, o que você tem feito?”
“Comprei um apartamento. Aqui na região, mesmo.”
“Meus parabéns! É uma conquista muito boa, ainda mais nesses tempos.”
“É verdade; obrigado. Também estou feliz. Quero me mudar logo.”
“Eu imagino! No seu lugar estaria super ansiosa.”
“É, pois é. E você, como anda a vida?”
“Vai no ritmo de sempre, com tudo corrido e tudo mais.”
“Ainda tá trabalhando no mesmo lugar?”
“Sim. Tô super cansada, mas vale a pena.”
“Eu acredito. É uma causa muito boa, muito nobre.”
“Sim.”
Ficaram em silêncio por mais doze minutos até a fila andar.
“Eu vou me mudar.”
“Olha só. Pra onde?”
“Longe. Espanha.”
“Que repentino, e até aleatório. Como aconteceu?”
“Consegui um trabalho por lá, na minha área. O contrato é de alguns anos e querem que eu esteja lá presencialmente, perto do público. Assinei os documentos semana passada e estou no processo de organizar a viagem.”
“Ah, que ótimo! Parece uma oportunidade excelente. Fico feliz por você.”
“Obrigada! Estou nervosa, mas muito animada.”
“Eu imagino que sim, mas tenho certeza que a animação é maior que a ansiedade. Você sempre foi competente e manda muito bem no que cê faz, então vai tirar de letra, com certeza.”
“Obrigada, de verdade. Estou muito feliz e minha família também.”
“Aposto que vão sentir muito sua falta.”
“E eu muita falta deles, mas é por uma boa causa.”
“É, sim.”
A fila andou mais um pouco.
“Acho que eu tô sozinho.”
“O quê?”
“Acho que tô sozinho.”
“Como assim? Você veio com alguém?”
“Não, eu tô falando no geral, mesmo. Na vida.”
“Não entendi.”
“Não é no sentido literal, é claro. É só a sensação. Sei lá, parece que eu não consigo falar com as pessoas, ou que as pessoas não vão querer falar comigo. Que é tudo um grande teatro e eu venho fingindo há tempo demais.”
“Fingindo o quê?”
“Que é de verdade. As pessoas, as relações, as memórias, os sentimentos; tudo. Que tudo é um grande palco pra esconder um sofrimento eterno por trás.”
“Isso não é verdade.”
“Provavelmente não, mas eu não consigo me convencer a ver as coisas de outra forma.”
“Eu não sei o que dizer.”
“Tá tudo bem. Não precisa dizer nada, só tá difícil de não falar e de sentir isso.”
“Você tá me culpando por isso?”
“O quê? Não, de forma alguma. Por quê?”
“Porque terminamos faz 5 meses.”
“É, mas você teve seus motivos. Eu entendo. Não fiquei feliz com a decisão na época, mas eu entendo. De qualquer forma, isso não é pra te fazer se sentir culpada nem nada, eu juro. A gente pode trocar de assunto ou só ficar em silêncio, se você preferir.”
“Não, não é isso. É só porque veio muito do nada.”
“Desculpa. Como eu disse, é difícil sentir essas coisas e não falar depois de tanto tempo.”
“A gente terminar contribuiu pra isso?”
“Sim, mas de novo, você não tem culpa nenhuma. Digo até que você não tem responsabilidade nenhuma nisso. Acho que isso é óbvio, mas acho que a conversa fica um pouco menos carregada se eu disser isso em voz alta. A gente terminar foi só mais uma evidência para construir o caso de que ‘estou sozinho’. Essas coisas acontecem, eu é que não sei lidar muito bem.”
“E por que você tá me falando isso agora?”
“Você vai se mudar pra bem longe em breve, né? A gente já não manteve nenhum contato nesses últimos tempos, então a chance é que depois de hoje a gente nunca mais se encontre de novo. Me senti à vontade pra falar algo que é pessoal, porque a gente já se conhece, mas sem um peso muito grande, porque nossa relação é muito breve.”
“Todas as relações são breves. Mesmo que nós tenhamos pessoas que nos acompanhem a vida toda, elas vão embora um dia, seja porque se afastam ou até porque morrem, ou porque nós morremos.”
“Sim, mas é diferente. Como eu disse, depois dessa conversa é improvável que a gente interaja de novo algum dia. A relação com as outras pessoas mais próximas têm uma roupagem de infinitude, de que vai durar pra sempre, de que são tão fortes que mesmo depois da morte ela ainda vai prevalecer de alguma forma. Você vai estar lá sempre para elas e elas vão estar sempre lá pra você. Mas não é assim.”
“Por que não?”
“Eu não tenho uma razão pra isso, mas é só a maneira que eu tô me sentindo, de que é tudo uma farsa. Provavelmente não é assim, mesmo, mas que nem eu disse, não tô conseguindo enxergar minha vida de outra forma.”
“Você deveria falar com um terapeuta sobre isso, ou um psiquiatra.”
“Já faço as duas coisas. Elas ajudam, mas parece que mais atrasam um destino inevitável do que me tiram desse caminho.”
“Entendi.”
“Acho que eu só tô cansado. Cansado de ter que fingir que tá tudo bem, de que, independente de quantos rostos conhecidos têm numa sala, eu não me sinto totalmente sozinho. Cansado de não ter ninguém que eu me sinta seguro para pedir ajuda, pra me sentir vulnerável. Cansado de me sentir rejeitado, repulsivo, indesejado de corpo e de alma. Tô cansado de me sentir abandonado.”
Não teve resposta. A fila avançou mais um pouco.
“Acho que vou pra casa. Essa fila não anda direito já faz um tempo. Acho que preciso dormir um pouco, também.”
“Tudo bem. Foi bom te ver.”
“Igualmente. Se cuida! Te desejo todo o sucesso do mundo na Espanha e na vida afora.”
“Obrigada. Pra você também. Não deixa de ir na terapeuta e tomar seus remédios. Eu queria poder dizer algo pra fazer você se sentir melhor, mas eu não sei o quê.”
“Tá tudo bem. Só ouvir já significa muito. Mesmo. Até mais.”
“Até.”
Uma semana se passou. Ela enviou uma mensagem:
Ei, fiquei preocupada com você desde que a gente se viu. Me avisa se eu puder te ajudar em alguma coisa, mesmo que seja só pra te ouvir de novo!
A mensagem nunca chegou.