Cidade maravilhosa
Era realmente uma cidade maravilhosa. No momento em que chegou, se sentiu perdido, então pediu por informações. Todos foram muito educados e simpáticos com ele. “Você é de onde?” era o que mais perguntavam, porque ele claramente não era de lá; “de Minas!”, ele respondia. Foi assim com a moça do aeroporto, com o segurança do shopping, com o garçom do restaurante e com a menina da recepção do prédio.
E que comida boa! Tudo muito bem preparado. Os aromas, o ambiente, a vista, tudo fazia ser muito mais gostoso. Cada mordida, cada gole traziam novas experiências sensoriais que ele nunca havia sentido antes. É claro, era de Minas, então estava acostumado com comida boa; mas aqui, a sensação era diferente. Talvez por estar fora de casa e tudo adquirir um ar de “novo”, ou por estar de bom humor e se permitir ir em restaurantes modernos e mais caros sem se preocupar com preço. De fato, talvez tenha sido a melhor experiência da sua vida; comeu tudo como se fosse sua última refeição e desfrutou de arroz e feijão como se fosse um príncipe.
Não podia esquecer da vista. Não conseguiria nem se tentasse. O mar azul, as montanhas verdes e cinzentas com a dose certa de prédios e estradas para dar um toque urbano que não era destrutivo, mas charmoso, até. Lá embaixo, as pessoas pequenas, num fluxo constante para resolver os problemas cotidianos. Daqui de cima, tudo parecia pequeno, resolvido, inclusive seus próprios problemas. Elas integravam o ambiente de um modo bem harmonioso, como se fossem naturalmente pertencentes àquele lugar. O que mais encantava, no entanto, era o Cristo: aquela estátua enorme era visível mesmo de tão longe, sem perder características do seu formato, imponência e beleza. Sortudo era quem tinha o privilégio de poder vê-la com os próprios olhos todos os dias.
Por fim, os sons. Talvez urbano demais com a buzina dos carros, os passos apressados e as zonas de construção, é verdade, mas de lá de cima tudo se misturava quase que num ruído branco. Muito mais perceptíveis eram o canto dos pássaros e o som do vento forte. Os sons da natureza, ou pelo menos o quanto fosse possível numa cidade tão grande.
Sim, era uma bela vista. Eram belos sons, também. No entanto, a última coisa que ouviu não foi o canto dos pássaros, mas sim, durante uma fração de segundo, o grito das pessoas em pânico. A última coisa que viu não foi uma das maravilhas do mundo, mas o asfalto sujo, lá embaixo.