Ele construiu um muro
Ele construiu um muro. Um muro bem alto. Era bem robusto, feito com tijolos de concreto, todo envolto com arame farpado e cacos de vidro. Impenetrável, ou quase. Havia acabado de ser construído, então era esperado que nem tudo estivesse perfeito ainda. Talvez faltasse um tijolo aqui ou ali, mas logo logo estaria perfeito.
Ele construiu um muro. Um muro bem alto. Tão alto que seus amigos não conseguiam passar por ele. Por algum tempo eles tentaram, e tentaram bastante. Batiam nos tijolos, gritavam seu nome, tentavam até arremessar coisas por cima. Nada, no entanto, surtia efeito. Era um muro muito bem feito. Pensavam que podiam usar os espaços em branco para passar uma mensagem, mas eles há muito haviam sido preenchidos com tijolos que impediam a passagem. Ele até pensou em responder às tentativas de seus amigos, mas o muro estava lá por um motivo, não é? Não foi construído por acaso, e não seria agora que ele questionaria suas decisões do passado. Depois de um tempo, seus amigos pararam.
Ele construiu um muro. Um muro bem alto. Tão alto que reprimia seu próprio desejo. No início foi bem desconfortável. Ele vinha, atravessava até os minúsculos cantos os quais o concreto não conseguia preencher e fazia questão de anunciar que havia chegado. Um incômodo muito, muito grande. Até ia embora depois, mas nunca deixava de voltar. Porém, o tempo passou, o muro ficou mais alto e ele aprendeu a lidar com o desejo. Não que ele deixasse de vir, mas, quando vinha, passou a ser ignorado. Quando isso não funcionava, se lembrava do que acontecia depois. Ele até gostava das sensações antes e durante a satisfação do desejo, mas odiava o que vinha depois. O “antes” poderia durar horas, dias ou até semanas; o “durante”, poucas horas; o depois, no entanto, durava, no mínimo, meses. Memórias, sentimentos e sensações que ficavam na sua cabeça o tempo todo e o impediam de se concentrar em qualquer outra coisa. Uma angústia tamanha que ele estava disposto a fazer quase qualquer coisa para afastá-las. Até mesmo negar que ela existe. Foi só quando seu medo de seguir em frente foi maior que sua força de vontade para tentar que o muro ficou ainda maior, e o desejo nunca mais foi visto.
Ele construiu um muro. Um muro bem alto. Mas de onde havia vindo? Não se lembra de quando colocou o primeiro tijolo, mas se lembra de ter colocado o último agora há pouco. Qual versão dele decidiu construir esse muro? Talvez uma parecida com a de agora. Uma que deveria saber o que estava fazendo, com certeza. Afinal, olha esse muro! É muito forte e muito alto. Nada nunca vai passar por ele. Ele nunca vai sair de lá.
Ele construiu um muro. Um muro bem alto. Tão alto que, depois de um tempo, ele parou de ter noção de qualquer coisa que pudesse haver do outro lado. Sem vozes, sem batidas, sem objetos arremessados, sem nada. Silêncio total. Um silêncio tão marcante que, com o tempo, ele não sabia se o muro o protegia ou se era a única coisa que o lembrava de que havia algo além dele.